quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Um dia normal

Ela mal conseguia se segurar, tamanha era a ansiedade de nos contar sua última experiência. Quando ficou mais calma, começou:

-Um dia normal, o clima usual dos verões porto-alegrenses. Sentia uma brisa que me soprava o pescoço ao andar embaixo das árvores da praça.

De repente, como Chapeuzinho Vermelho que quer descobrir o outro lado da floresta, fui desviada do meu trajeto.

Entrei na primeira esquina à direita, e na outra à esquerda. Sabia muito bem onde aquilo daria, mas não me importei. Deixe-me levar por todos os impulsos que me mandavam para lá.

Cheguei ao velho casarão, de paredes descascadas e do conhecido cheiro, uma mistura de lembranças e pessoas. Que saudades das minhas pessoas...

Quando entrei, no entanto, nada parecia envelhecido. Estava tudo em seu lugar, como se eu nunca tivesse ido embora. E, para minha surpresa, tampouco meus amigos tinham deixado a casa – estavam lá, à minha espera.

Ligaram a música, acenderam todas as luzes e começamos a dançar. Era tudo como antes. E era maravilhoso! Corremos pelo pátio, brincamos de pega-pega e esconde-esconde, soltamos pipa naquele céu azul e caímos deitados na grama verde. Me sentia viva novamente, com aquelas cores vibrantes, com aquela energia.

A noite ia se aproximando e nada mais importava. Só nós mesmos, nossas idéias e expectativas – o ritmo era desenfreado, mas não podíamos mais esperar! Entramos no velho carro, que ainda funcionava perfeitamente, e viajamos. Por horas. Quando chegamos ...

-Chegaram onde?

-Hum... engraçado. Não me lembro muito bem. A verdade é que esse dia foi, mesmo, muito confuso.
Acreditas que pela manhã eu fui ao psiquiatra e ele insistiu em dizer que eu sofro de mentira compulsiva?!


domingo, 21 de setembro de 2008

Fotografias: O inventário do mundo

Faço uma disciplina de Introdução à Fotografia na faculdade. Não é uma obrigatoriedade para o meu curso, mas, em minha opinião, devia ser indispensável para qualquer pessoa. Sim, independente do nível de apreço pela fotografia que tem o indivíduo, as fotos são um registro do mundo e sua evolução (ou retrocesso) e ninguém devia ficar na ignorância desses fatos.

Selecionei algumas fotografias históricas que tomei conhecimento através dessa disciplina e que me tocaram, de alguma forma.

Rue Mouffetard, de Henri Cartier Bresson.
Foto de 1954, em Paris.
Não consigo olhar pra essa imagem e não ficar contente. O rosto do menino, a expressão das meninas ao fundo, fora de foco - fantástico. O fotógrafo relatou que o foco perdido ao fundo não era seu objetivo, mas se a imagem tivesse sido feita com mais calma e preparação, certamente a alegria do menino não teria sido capturada. Me desperta certo ciúme a expressão tranqüila do pequeno estudante, que parece não ter preocupações.




Lunch time and Smoke, de Lewis Hine.
Foto de 1931, Nova Iorque.
Lewis Hine foi contratado para registrar a construção do Empire State Building, em NY. Apesar de seu impulso inicial ter sido o d
inheiro que receberia pelo trabalho, Hine acabou direcionando o registro para um enfoque diferente: a denúncia às condições precárias de trabalho. Nessa imagem, capturou o momento de pausa do operário - horário para almoço e, também, um cigarro.



Morte de um Miliciano, de Robert Capa.
Foto de 1936, em Cerro Muriano, na Espanha.
Robert Capa, contratado para fotografar a II Guerra Mundial, entre outras batalhas, fez essa foto histórica que gerou grande polêmica em sua época. Das muitas estórias paralelas que surgiram, uma das mais conhecidas é que Capa e o homem das milícias combinaram a encenação de um ataque, para produzirem uma foto impactante. O que eles não esperavam é que o fato iria se tornar realidade com um disparo que Capa, mesmo não tendo ouvido, presenciou.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Talvez aos poucos
- devagar -
seja mais simples,
mais fácil de aceitar.

Mas
Tenta adivinhar.

Nem aos poucos,
nem aos muitos,
eu quero te afastar.

Bruna Dalmaso Junqueira

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Carta Para o Futuro


Passeando pela internet a gente descobre cada coisa... Há pouco, fiquei sabendo da existência de um site desenvolvido para o envio de e-mails pro futuro. É exatamente o que parece – a pessoa escreve um e-mail, seleciona o destinatário e escolhe a data de entrega da mensagem!

A mim pareceu fantástico. A possibilidade de conversar com alguém do futuro, que você já conhece no “passado”, pode parecer meio maluca, mas tem todo o fundamento. Inclusive, acho válido para o envio de mensagens para si mesmo. Já pensou?

Ainda não tive coragem, mas pretendo aprontar uma dessas com meu ‘eu’ do futuro. Imagino o que vou pensar de minhas idéias, atitudes, características de hoje. Será que vou me orgulhar? Ou nem tanto?

Em princípio, minha proposta é humilde. Fazer uma lista de coisas que pretendo realizar daqui para frente e conferi-las (cumpridas ou não) num futuro próximo (o mínimo é de um ano!). Essa lista, no entanto, não é o que se pode chamar de publicável... É papo de Bruna com Bruna.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

El silencio de la noche

Tus ojos, tu voz,
me piden cosas
que hago, sin pensarlo.

Pero,
los mejores regalos
que puedo dar
- mis palabras -
éstas, hoy, no te quiero dedicar.

Bruna Dalmaso Junqueira

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A grama do vizinho é sempre mais verde

Hoje quando eu voltava da faculdade, no ônibus, sentou do meu lado um cara jovem, no máximo uns 23 anos. Vinha dando risadas no corredor com um amigo que sentou à nossa frente. Eu, de fones nos ouvidos, no volume máximo, nem prestei muita atenção. Os dois conversavam, apontando para páginas de um grosso livro de Cálculo Volume I. Meu interesse nos dois diminui incrivelmente depois do surgimento do livro. Ai, como eu detesto matemática!

Mas, pro meu espanto, depois de uns 10 minutos de viagem, o mocinho me abordou, com um sotaque carregado:

-Esstudass na UFRRRGSS?

Eu achei estranho, claro. Há muito tempo que ninguém desconhecido tentava iniciar uma conversa comigo, dentro do ônibus. Ou melhor, acho que isso nunca aconteceu. Uma vez eu puxei papo com um homem que sentou ao meu lado em uma viagem ‘Porto Alegre – Uruguaiana’ (são quase nove horas, não agüentei tanto tempo de boca fechada!). Mas na época eu tinha nove anos e nenhuma noção da pouca abertura que as pessoas têm com esse tipo de atitude.

Por essas e outras que respondi insegura que sim, estudava. Aí ele perguntou que curso eu fazia e eu disse que era Biblioteconomia. Como de praxe, ele fez aquela cara de “Aaah..”. Que é uma mistura de desapontamento e vergonha que as pessoas sentem quando a gente diz que faz esse curso de maluco. Mas, não posso culpá-lo, e isso também já é assunto pra outro conto.

O fato é que me deu curiosidade de saber o que ele fazia. E de onde saiu aquele sotaque estranho dele. Então descobri que ele fazia Engenharia Química, que estava há cinco meses aqui em Porto Alegre e que é natural do Congo. Por isso aquele chiado nas palavras: é um falador de Francês nato! Que invejinha que eu senti. Adoro Francês, é lindo, é charmoso, é romântico. E eu não sei dizer nem “Oi”.

Sei que, no fim, fiquei admirada. Parfait (esse é o nome do meu amigo africano, que significa perfeito) chegou ao Brasil com mais cinco amigos conterrâneos, sem falar uma palavra de Português, nadinha! E agora fala de forma muito acessível. É verdade que uma hora o corrigi – eu e minha mania de corrigir os outros -, mas não foi por erro de vocabulário, e sim pela ambigüidade de sentidos que uma expressão pode ter na Língua Portuguesa.

Depois descobri que o amigo que estava sentado à frente dele (e se levantou para dar lugar a uma senhora não-idosa, em um banco não-preferencial) é guatemalteco. Ambos tinham 19 anos e uma infinidade de coisas pra contar que, infelizmente terminaram na minha parada do ônibus.

E quer saber? Que vida previsível, essa minha.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Relato de uma mulher estressada

Olhava pela janela as ruas vazias – era tarde. O trem parecia andar mais devagar do que o normal... Que dia interminável!

Depois, ao descer pela rua escura, ouviu passos. Alguém estava a seguindo. Virou para trás e conferiu: um homem de média estatura, com uma aparência aceitável, mas de rosto nada amigável, a perseguia há dois quarteirões. E não parecia ter intenções de mudar de direção.

Ela começou a andar mais rápido. Não sabia bem o fundamento daquilo, já que, se ele quisesse, a alcançaria sem esforço. E, de fato, alcançou.

O monstro colocou uma arma em suas costas e pediu, delicadamente:

-Passa a bolsa, tira o relógio, tira o sapato também. Me dá esse brinco, é de ouro? E esses óculos? De marca, né, ô, perua! Passa pra cá.

Foi tirando os sapatos, a bolsa, os óculos. Mas, os óculos?

Tudo bem que o queridíssimo assaltante esperava que ela voltasse para casa descalça, sem bolsa e sem chaves. Mas sem óculos? Ela não ia conseguir atravessar a rua sem eles. Que falta de consideração:

-... Po-posso, por favor, ficar com meus óculos? Não consigo enxergar sem eles.
-Lógico que não.
-Mas
-Compra outro, depois, minha filha.
-Mas q...
-Além do mais, não parece que precisas tanto desses óculos. Quer parecer inteligente, né não?!

Ela já começava a tremer de raiva, quando o assaltante completou:

-Tira logo isso aí, mulher!
-Mas
quem é que o senhor pensa que é?
-
?!?!?!?!
-Eu saio todos os dias de manhã da minha casa, arrumada, tentando me sentir bem comigo e com minha aparência. Pego dois ônibus e um trem para chegar a um trabalho que não paga todas as minhas contas. Como um monte de besteiras o dia inteiro porque preciso saciar minhas ansiedades. Chego à noite, cansada, com o corpo dolorido. Assisto às novelas estúpidas da TV, as únicas disponíveis para quem não tem uma por assinatura, que alimentam ainda mais minha sensação de solidão e minha noção de desajuste corporal ao olhar aqueles “mulherões” que transitam de um lado para o outro da minha televisão 14’’. Ligo o computador, abro meus e-mails e espero, inutilmente, pela resposta de alguma empresa daquelas 30 para onde enviei meu currículo – aquele com duas graduações, cheio de cursos de especialização e inúmeras experiências no mercado. Quando chega o sono, me deito sozinha numa cama gelada, e durmo até à hora do maldito despertador tocar. E, como se não bastasse, ainda sou obrigada a ouvir um imbecil-com-uma-arma-na-mão me dizer que uso meus óculos (destinados à minha hipermetropia avançada) para parecer inteligente?! PARECER INTELIGENTE? ...

Ela não entende a razão, até hoje. Mas o ladrão largou suas coisas no chão e saiu correndo.

Bruna Dalmaso Junqueira